No dia 28 de janeiro, movimentos sociais e populares realizaram um ato em memória de Janaína Bezerra Silva, poetisa e estudante de jornalismo da Universidade Federal do Piauí (UFPI), brutalmente assassinada dentro do campus de Teresina. Além da família de Janaína, participaram do ato: Movimento de Mulheres Olga Benario, Movimento Correnteza, Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), União da Juventude Rebelião (UJR) e Unidade Popular (UP). Entre as principais denúncias, foi reafirmada a exigência de reconhecimento judicial do crime como feminicídio.
Segundo a coordenadora estadual do Movimento de Mulheres Olga Benario, Giovana Matos, Janaína foi vítima de feminicídio, e as provas da investigação policial são contundentes: a jovem foi violentada sexualmente mesmo após a morte. "E mesmo com as provas óbvias de que foi um crime calculado, cometido a sangue frio, o júri popular decidiu que a violência que o Thiago cometeu contra ela foi um descuido”, criticou Giovana.

Foto: Divulgação
Caso comove população, mas impunidade persiste
O crime aconteceu em janeiro de 2023, durante uma calourada na UFPI. Janaína foi atacada por Thiago Mayson Barbosa, mestrando de matemática que, de acordo com relatos, já tinha um longo histórico de assédios dentro do campus da universidade. A morte da estudante gerou forte comoção, mobilizando tanto a comunidade acadêmica quanto a sociedade, que se solidarizou com a família.
Mesmo assim, a cobertura da mídia burguesa tentou deslocar o foco da responsabilidade institucional, enfatizando que se tratava de uma festa irregular, não autorizada pela universidade, e atribuindo aos estudantes a culpa pela falta de segurança.
Cerca de oito meses após o crime, Thiago foi condenado a apenas 18 anos de prisão, por homicídio culposo, dentre outros crimes. Embora o julgamento tenha sido posteriormente anulado por falhas processuais, o resultado deixou um recado preocupante: a decisão judicial ignorou as marcas de violência de gênero presentes no caso e não considerou o papel da negligência institucional na morte de Janaína.
Desmonte de políticas públicas agrava cenário de violência
Durante o ato do dia 28, também houve denúncias sobre o enfraquecimento das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. A coordenadora estadual do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, Dara Neto, destacou a contradição entre os altos gastos públicos e a ausência de investimentos na proteção das mulheres.
“Nós não podemos nos contentar que bilhões sejam destinados ao pagamento da Dívida Pública, enquanto, no nosso estado, mais de 90% dos municípios não têm uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher. Não há projetos para ampliar casas-abrigo, nem para fortalecer a rede de delegacias ou valorizar as profissionais que atuam nessa linha de frente”, afirmou Dara.
Uma avaliação realizada em outubro de 2025 pela diretoria de Fiscalização das Políticas Públicas do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) reforçando essas críticas. O relatório apontou falhas graves nas políticas de enfrentamento à violência de gênero entre os anos de 2023 e 2025, como ausência de planejamento orçamentário, infraestrutura precária em delegacias e centros de acolhimento, problemas na gestão da Patrulha Maria da Penha e o desmonte da Central de Flagrantes de Gênero.
“Apesar do governo do estado ‘ficar feliz’ que as vítimas de feminicídio não são aquelas protegidas pelas medidas protetivas, a grande maioria das mulheres sequer vão atrás desse direito, porque sabem que ele ainda não é acessível para todas”, destacou Dara.
Ao final do ato, os movimentos sociais reafirmaram o compromisso com a construção de uma grande jornada de lutas pelo fim da violência de gênero, erguendo a bandeira do socialismo e mantendo viva a memória de Janaína Silva.
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